domingo, 10 de abril de 2011

Quando a vida era plena


De um fragamento de autor desconhecido)

Na época em que a vida na terra era plena, ninguém dava nenhuma atenção aos homens dignos, nem selecionava os homens capazes. Os soberanos eram apenas os galhos mais altos das árvores, e o povo era como cervos da floresta.

Eram honestos e corretos, sem imaginar que estavam cumprindo com o seu dever. Amavam-se mutuamente, e não sabiam que isto é amar ao aproximo. Não enganavam ninguém, e no entanto, sabiam ser homens de confiança. Podia-se contar com eles, e ignoravam que isto fosse a boa fé.

Viviam juntos livremente, amando uns aos outros, e não sabiam que eram homens de bom coração. Por este motivo, seus feitos foram narrados. Não constituíram história.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Petição


Não quero me perder nas entranhas,

Nas artimanhas,

De dor tamanha,

De estupro mental e nocivo

(Confrontações)



Só quero alimentar as labaredas,

Com mais sedas,

Porque sinto seu calor e seu queixume

Para contrito, atiçar meu navio

Ao mar ativo

Que reativo, sufocou e afogou meu pranto

Num débil rio.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

No meio do caminho


No meio do caminho o Benedito chora por mais uma decepção com a Catarina, que ao encontro marcado, falou pela segunda vez consecutiva. Apaga seu cigarro, vai ao bar da eqüina e “desabafa” a “geladinha”, mal sabendo que é exatamente por causa desse vícios que Catarina hesita em investir nesse idílio amoroso. Assim, Benedito fica a curtir, com seus vícios, a dor e a desilusão.

O menor abandonado está cumprindo sua faina diária de coletar seu pão de cada dia, rejeitado pelos maiores abandonados, enquanto a madame da mansão próxima à praça pede ao mordomo que não se esqueça de comprar, no supermercado, o filé para o seu buldogue.

No meio do caminho o padre deixa o viajante que lhe pedira carona na rua principal, em busca de dias melhores estrada afora. E o homem, anônimo, segue com sua trouxa à sorte futura.

A escrava branca sai de sua “senzala” para satisfazer aos desejos índimos do Executivo, pagos ao esposo da cafetina. Deixa, com sangue e horror, os seus treze anos de puberdade à mostra, e logo, após refeito o deleite, ele vai rumo à sua casa, e sua amada esposa espera-o dando-lhe um beijo apaixonado, acompanhada de beijos carinhosos de suas duas filhas adolescentes, que se preparam para o próximo baile de “debut”.

No meio do caminho os arrombadores param. A luz apagada, silêncio total, e dividem o produto do trabalho na calada da noite. E os fardados, nesse momento, vomitam velocidade, ao encalço dos facínoras, mais com intenção de apagá-los do mapa.

No meio do caminho um carro está parado, pneu furado, motorista terrivelmente furioso, e mais furioso o passageiro do táxi, que tinha o inadiável compromisso de entregar os religiosos cartões da loto na agência próxima.

Tudo acontece diferente, com pessoas diferentes, no meio do caminho. Se os espaços pudessem falar e ao mesmo tempo acusar, contariam tantas e tantas histórias que acontecem no meio do caminho.

Eu também estou no meio do caminho. Olho e ouço o barulho ensurdecedor da máquina de escrever, somado à poluição dos carros, e às verborréias dos transeuntes anônimos. Ouço a distante música suave e serena da Fm distante.

Talvez a atenção das mulheres, logo adiante, apreciando um dos últimos capítulos da novela global das vinte horas, justifique tanto barulho longe.

Acho que vou parar por aqui, continuando depois. Que conclusão tirar deste texto idiota? Qualquer uma, de maneira que não me forcem a reescrevê-lo. E por ora, deixo-o... no meio do caminho.

sábado, 2 de abril de 2011

Sobre a Felicidade


Já disse Kant muito acertadamente, que o homem só pode pensar com as noções de tempo e espaço. Podemos acrescentar que as noções de corpo e existência também são necessárias. É talvez, devido a essa disposição peculiar de nossa mente, que tentamos tantas vezes objetivamente resolver muitos problemas puramente objetivos. E uma das questões mais mal enfocadas é, sem dúvida, a que chamamos felicidade.

Todos pensam na felicidade quando pensam numa coisa em si (nôumenon), enfim, uma coisa existente por si mesma, independente de julgamentos. É lógico que não existiria esse termo se não houvesse alguém que dele falasse, ou mesmo se não existisse nenhum “ser”. São os atributos e não as coisas que qualificam uma existência. Assim, parece-nos que a felicidade é uma coisa que nos falta... é um atributo que nos completa.

Não devemos procurá-la; devemos transformarmo-nos para tê-la. Essas reflexões ocorrem quando vemos a situação atual da humanidade. Para muitas pessoas, entre elas muitas que podemos classificar de racionais, felicidade é dinheiro. Esse modo de ser e de ver cada vez mais se acentua, sendo reflexivo e inconsciente. Não há que corrobore mais o nosso ponte de vista do que a sensação de alívio, verdadeira sensação de segurança de que se sente tornando o indivíduo que aprendeu a não colocar o dinheiro sobre o pedestal de seu ideal.

Já são muitos hoje os que combatem essa corrida louca atrás do dinheiro. É como água do mar: quanto mais ingerida, mais sede nos dá. É talvez a sensação de insegurança, de que toda criatura é mais ou menos possuída, a causa de tanta reserva de dinheiro das quais as pessoas sentem necessidade para enfrentar a vida. Porque, na época em que vivemos, dinheiro é poder. E poder é necessário porque representa segurança. Como diz Adler: ´É o sentimento de inferioridade, de inaptidão, de insegurança, que determina o alvo da existência de um indivíduo”. Logo, é natural que haja procura de dinheiro, se este representa o poder, e portanto, segurança. Daí a concussão entre valores e felicidade. Na vida humana as “existências” são necessárias, não essenciais.

Todos nós já tivemos ocasião de notar jovens e adultos que vivem como se o mundo fosse apenas um prédio de avenida: é só fachada. Apresentam-se como se no universo existissem só duas dimensões: a altura e a largura do ‘quadro’ ou ‘vista’ que fazem. Parece não haver terceira, nem profundidade, nem compreensão. Não é o caso de invejar-se-lhes a sorte, pois enquanto assim permanecerem, elas já figuram como parias da natureza humana sendo, em parte, fruto e semente de decadência das civilizações. Geralmente são eles os representantes sociais da filosofia pecuniária.

A esse tipo de criaturas, a ostentação, o luxo e mais outras coisas que o dinheiro pode dar, ocupam quase todo o lugar reservado para o ideal. É de lamentar porque a felicidade não está numa egoística satisfação pessoal. Há quem diga que a felicidade sempre é a diferença entre o que se consegue e o que se almeja.

Existe algo de verdadeiro nesta perspectiva, mas nossa lógica invariavelmente nos permite supor que um dia conseguiremos tudo. Nesse caso, onde fica a felicidade?

A felicidade, assim como os outros problemas capitais, é de difícil definição. Entretanto, podemos afirmar de maneira irredutível que o homem será mais feliz no dia em que deixar de se escravizar aos apegos, aos preceitos, aos credos que cada vez mais interram sua liberdade de pensar.

Belém, Pará, julho de 1986, (No “vadião” da Universidade Federal do Pará, vislumbrando as atuas do rio Guajará.)

Tributo a Marilyn Monroe


Fazem 50 anos que morreu Marilyn, a loura sensual de Hollywood. Matou-se, melhor dizer. A solidão, sua última amiga, levou-a ao desespero. Por que teria se matado Marilyn? Ela possuía tudo que a maioria dos mortais desejava: beleza, dinheiro, glória. Mas não tinha aquilo que realmente aquece o coração. Quando pobre e obscura, teria desejado o que mais tarde obteve e talvez compreendesse a inutilidade de tais coisas. Morreu sozinha a loura invejada e cobiçada por centenas de pessoas. Morreu com o telefone na mão, quem sabe num ultimo impulso de procurar – como diz o tango – “um peito fraterno para, ao morrer, abraçar”.

Qual será a razão por que centenas de pessoas diariamente fazem o mesmo? Que pensamentos cruzam seus cérebros nos últimos momentos da vida? Acabar com a própria vida, esse dom que nos é insubstituível? Deve ser algo bem doloroso sentir que a única saída para a vida é acabar com ela. Quantas vezes ouvimos dizer: “”Dou a vida por esta ou aquela pessoa!” Pura mentira. Acabando ela, de que adianta tudo mais: casa bonita, passeio de carro, coleção de selos... nada. Acabando a vida, terminam todos os desejos terrenos.

Há outras maneiras de suicidar-se, muito usadas nesta época: morrer aos poucos, lentamente. Vamos ao cinema passar o tempo ou, como dizem alguns: matar o tempo. Na verdade, não é o tempo que matamos – ele é algo sem princípio nem fim – mas um pedaço de nossa própria existência. E nem sentimos pena. Hoje é um filme que sabemos de antemão que não vamos gostar; amanhã, um livro de um autor que nos causa tédio. Depois, uma visita de cortesia a alguém que quase odiamos. E assim vamos nos assassinando aos poucos por indolência ou por covardia.

Disse uma professora certa vez: “Por que não estudar?”. Disse o mesmo um aluno: “Por que estudar?”. A vida passa igual. Mas estudar sem entusiasmo, sem ideal, não será uma forma de matar horas da vida? E ficamos penalizados diante de tantas mortes súbitas, voluntárias. E nem mesmo notamos que, vez ou outra tomamos nossas dosezinhas de veneno lentamente, sorvendo aos poucos, matando horas que jamais voltarão. Nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais, quando devíamos pegar-nos a cada instante, como alguém que quando parte é para sempre.